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Terminal Barra Funda

Estava mínima distraída a ponto de cair no vão
entre o trem e a plataforma  e descobri que se vive bem
com tudo que é deixado por aqueles com pernas longas o bastante
para dar uma esticada em um café de negócios
para além do terminal

Adestro ratos para que tragam salgadinhos frescos
com sorte algum Trident ou biscoito de polvilho
Se encontramos guardamos para ceia do Natal
Construo fortunas de moedas de pelo menos 12 países
Negocio com outros esquecidos no metrô do Mercosul

as obras de expansão seguem lentas não é novidade mas sonhamos
com o grande dia em que seremos ainda maiores que a cidade
juntaremos tubulações do metrô com o esgoto, gás, água
(o povo que vive no esgoto não é fácil. eles dominam as capivaras)
Um dia seremos maiores

Teremos representantes nas Olimpíadas
já treinamos diariamente salto com vara entre o trem e a plataforma,
levantamento de chocolate, crawl na poça d’água
hipismo de barata
Um dia seremos maiores do que a nossa queda

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Natal

Ao papai noel peço uma bicicleta vermelha
virando na contramão e tomando xingo
Um batidão noturno na casa da frente
intervalos épicos com flashs psicodelicos
carros querendo ajuda para entrar na garagem
alarmes desesperados
porteiros resmungões
vizinhos cantores
ligações por engano
ao menos um motoboy estrondando os motores
e um cachorro insistente de latido ardido
tudo, absoluamente tudo que for necessário
para deixar minha avó acordada
até a hora do show do Rei

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Passatempo

Ainda repito meu gesto de criança.
fecho os olhos contra os joelhos
cruzados na altura do peito
minhas mãos seguram as pernas.
Entro em posição de vírgula,
esperando pontinhos coloridos
trazerem o que nenhum
outro lugar de hoje tem.
É tão bom lembrar daquilo
que você nunca mais lembrou,
é gostosa a primeira memória.
Dona Cida me ensinou
a empinar insetos voadores.
Você prende suas asas com os dedos,
amarra linha em sua barriga
e depois solta sem deixar ir
Colhia amoras, conhecia quintais, vendia sucos,
nunca comia amoras
Roubei um ovo para jogar à noite no asfalto
e ouvir o barulho de algo que não pertence
tem gosto de passatempo com cloro
de piscina minha memória

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vírgulas quebram números

espaços quebram palavras
versos quebram
poemas
com linhas quebro parágrafos
e com páginas quebro livros
livros existem para quebrar
tudo quebra

O tempo quebra
analógicas estações, luas, signos, e atrasos
Quebram as relações, os ossos
o nariz da estátua, a cara
As refeições, as conversas
o coração dos apaixonados
quebra mesmo

A água quebra
garrafas, copos, gelos, goles e vapor
O mar quebra
quebra a porcelana do dente e da avó
a expectativa,
a rotina pede uma quebra
quebra essa

Uma foto é uma quebra
lembrança também
o copo da pia quebra
quebram-se os conjuntos como
quebram-se as nozes no fim do ano
a conta bancária quebra, esquinas quebram
consoantes quebram a lingua

mas sempre que algo quebra
abre

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Prédio

duas luzes vermelhas piscam no alto de duas antenas no alto de dois prédios
a luz de número um pisca a cada seis segundos e meio
a luz de número dois pisca a cada quatro segundos e meio
e apagam e acendem fazendo sombras na sua cara concentrada
enquanto você faz contas repetindo os dedos

em cinquenta e oito segundos e meio as duas luzes vão piscar
por um segundo ao mesmo tempo, pela mesma duração
com a mesma cor, mesmo brilho, mesma intensidade
uma grande união testemunhada por você e ignorada pela cidade
mas contra todas as provas de matemática

não é esse o segundo que você festeja
e sim o quase minuto que passou e que segue

de busca intercalada

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Nos dias de nuvem

seguro meu próprio polegar para atravessar a rua
apagar a luz, falar ao telefone, pedir pizza
afundo as mãos no saco de pipoca
para que sinta elas
emborracharem

abotoo três quatro vezes a mesma camisa
erro botões como erro estações
brigadeiro faria lima qual era o outro
sei que tem mais um na próxima linha
mas é diferente

a atenção fica em manchas da mesa
excelência de pratos perfumados
gavetas ordenadas com precisão
com dias agendados

como que se em cada ralo
ou cada saco
pudesse eu mesma me levar embora
e ainda tomar nota

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Bloqueados

veja bem meu amor
louca mesmo é
a vida

ja me esquecia
que no twitter te seguia
cabeça essa a minha

você tentou me readicionar

agora recordo e devo
sem demoras
te bloquear

e digo também
meu emprego vai bem
não se preocupe
confie

não há atualização pra ver
não há motivos pra ler
todos os dias o meu
linkedin

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Daqui a pouco

Sou o imediato depois do que não foi. Você apostou alto, bancou tudo, insistiu muito, floreou tanto que não deu.

Antecedo o que será aquilo que você sempre quis, o que você sempre precisou, o aconchego que você só não buscou antes só por desconhecer.

Antes não interessa mais agora que depois chegou. Eu não pertenço às histórias que um dia você vai contar.

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Notegraphando

Notegraphy é um aplicativo simpático que dá todo um tchãnz visual-hipster-estético no seus textos. Agora vou colocar todas as minhas frases de efeito nele. Mwahahah.

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Bem também

Me perguntaram se tudo bem. Tudo bem sem saber o que é o tudo e o que é o bem.

O meu tudo deve ser nada pro João Gilberto. Deve ser árvore pro Arnaldo Antunes, sexo pro Serguey, pedra pro Drummond e a nova Barbie para minha prima de 8 anos. É ainda everything pro gringo sem dicionário, perdido em um taxi de Copacabana. Certo que tudo é o que o taxista quer tirar do gringo perdido sem dicionário dentro do seu taxi em Copacabana.

O meu tudo talvez não funcione em Saturno. Se eu der tudo pra uma girafa, ela não vai saber mastigar. Se eu der tudo prum avestruz, ele vai tentar roubar de mim. Eu não sei se eu quero dar tudo prum avestruz ou botar tudo a perder.

As coisas andam estranhas desde que eu sonhei ter sido abduzida por um ET que estava no pé da minha cama. Ele era o único a saber o que era tudo pra mim. Sabendo, pode ter levado embora. Pode ter implantado um chip da zica. Ou ainda implantado dois polos negativos: um no tudo e outro no bem.

O meu bem também é
Não sei se um estado. Não é um momento, muito menos uma pessoa ou algo tateável.

Olhando de cima, o bem não faz diferença. Não existe bem, sorte, certo, Deus, pena ou final: existe o que te interessa. Bem foi o que eu vi uma vez atrás do pote de geleia. Foi você em uma quarta-feira no cinema.

Me perguntaram se tudo bem. Eu disse sim, e você?

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Bolso furado

Sonhei que tinha perdido a carteira
E nessas perdi o sono
De tanto espaço no quarto 
me perdi em pensamento
até perder a hora

Perco a calma ao perceber
Que vivo mesmo perdido nos caminhos
Queria que isso desse jeito
Que fosse esse o objetivo
Mas mesmo perdido se chega

E é sempre chegando que perco a vontade
Vontade que me faz perder a noção
Que bem faz em não se ter

Embora já tenha perdido o prazo da conversa
me ajuda aqui a não perder essa minha única convicção

Seja lá o que for,
seja lá onde a gente for,
não tem como dar perdido no destino
E o destino de tudo é se perder

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Vamos agora com a previsão do tempo
Quais são as notícias de hoje?
Boa tarde a situação é grave

Chove na sua mesa de trabalho
Outros 38 lugares enfrentam estiagem permanete
e padrão dos escritórios fechados

Já a região do oeste do seu monitor encontra-se
alagada
O TI declararia estado de emergência

Como você pode ver aqui e aqui e aqui também
Não é só uma goteira. É água mesmo
O problema é que ainda não existem dados oficiais

sobre as causas da chuva. Os laudos são inconclusivos
não sabemos se a origem da suposta tempestade é real
ou metafórica

Não se exalte ou avise a faxineira até ter certeza
Pegue o lixo e use como balde, o porta-lápis como bote
Deixe a roupa molhar e o ar condicionado entrar em curto

Não se exalte ainda não
Responda que está bem se perguntada
Continue a trabalhar

De verão

Nota

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2014. O ano do cavalo

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MÃOS À FORCA

1.

O cara vai lá, desce da árvore, passa por guerras e pestes; Desbrava, coloniza, cria avião, vacina e internet, mas no início do dia, está recém atravessado na minha frente, convicto que malandragem mesmo é furar a fila do quiosque de pãozinho de queijo na rodoviária. Não tem jeito certo de pedir pra alguém sair dessa posição. Você vai invariavelmente ser um filho da puta. Conheço bem esse tipo: Se eu reclamar, ou ele vai fingir que não me ouviu, ou vai virar e rebater com agressividade, até eu me sentir miseravelmente culpada, como se fosse eu quem estivesse tentando tirar vantagem o tempo todo. Conto três pessoas na minha frente, incluindo o cara. Conto também dois pãezinhos de queijo no expositor do balcão.

Penso em uma velhinha que esbarrou em mim e deixou algumas moedas cairem da minha mão direto no piso, isso na semana passada. Enquanto eu me abaixava para recuperá-las, ela agradeceu a minha gentileza em ajudar e estendeu a mão afim de pegar os seus níqueis de volta. Que tipo de pessoa seria eu em discordar de uma senhora com catarata e bengala, talvez meio surda? Ela levou minhas moedas. Essas coisas funcionam na mesma lógica de tomar um murro na cara e ouvir, segundos depois, que você sabe o porquê de ter apanhado. Antes de revidar, ficar fulo ou sentir a cara latejando, você vai pensar se realmente não merecia aquilo. Todo sujeito tem um bom motivo pra tomar uma sova, afinal. Lá se foi mais um pão de queijo. Talvez eu mereça isso também. São duas pessoas na minha frente que precisam fazer qualquer outro tipo de pedido.

Esse cara, o da minha frente, ele deve ser paulistano. Veste paletó, tem uma pastinha embaixo do braço, um tique nervoso de coçar a nuca perfeitamente aparada com suas unhas ainda mais perfeitamente aparadas. Olhando daqui, arrisco a dizer que ele usa base um tom abaixo da cor natural da sua pele. Usa base e precisa pegar um ônibus para trabalhar: Coisa de paulistano, entende? São Paulo impera uma xenofobia às avessas. Acho que ninguém nasce aqui mesmo, mas vem pra cá em algum momento. Li em algum canto que chegam vinte e seis pessoas pra morar nesse lugar por hora, então quando você se depara com um sujeito assim engomadinho, mal educado e estressado, você diz que ele é cria daqui, que não pertence a esses vinte e seis. Não que não sejamos menos caricatos e trágicos, como a mulher que acaba de sair da fila segurando uma coxinha em uma mão e uma Coca-Cola na outra. Usa tanta maquiagem que se ela espirrasse, é certo que o rosto trincaria da testa até o queixo. Mesmo eu carrego dois sapatos na bolsa: Um para subir as ladeiras da cidade, outro, de salto, para andar no plano. Eis a prova incontestável de que eu não sou adaptável ao relevo.

Agora é só ele e eu na fila. Consigo ouvir o som abafado vindo da sua nuca, pedindo por um café e o último pão de queijo. Nessas horas, a sociedade tem que agradecer a não-legalização das armas. O cara sai apressado para o terminal e eu fico com o resto do cheiro do pãozinho no ar, que está agora em um saco branco e transparente pela gordura da mantega usada para untar a forma. Peço o mais frustrante café com leite e pacotinho de bolacha, caminho até o ônibus. Por sorte, consigo um lugar sentada e segundos depois, um senhor senta ao meu lado, mesmo com outros lugares vagos. Entendo essas coisas como um sinal de que eu tenho aparência receptiva. Dou umas goladas no meu café com sorriso interno da vitória. Até que o dia não está de todo perdido.

Começo a ler e me sinto enjoada, não pela leitura mas sim pelo cheiro repentino do ainda pão de queijo. Devo estar alucinando, não é possível. Não, não estou. Olho para cima e ali está o cara da fila, de pé no corredor. Cara, que coisa nojenta e constrangedora é deixar essa pastinha socada entre as suas pernas, perto da virilha, pra conseguir se equilibrar nas cordinhas do ônibus. Imagino se a pasta não tem algum tipo de marca mais escura em v. Pior do que essa visão é notar que ele nem comeu a porra do pão de queijo, que está agora pendurado junto com a sua mão.

Queria mesmo entender em que momento da história, entre o descer da árvore e o furar a fila, o ser humano achou que seria uma boa ideia colocar essas cordinhas amarradas nos canos dos ônibus. Olhando de cima, parece que todas as mãos vão à forca, balançando já meio mortas. Não completamente enforcadas, porque se assim fosse, o pão de queijo rolaria pelo veículo e eu poderia encontrá-lo em um cantinho, embaixo de algum assento. Daria uma sopradinha e comeria sem culpa.

Desço no ponto 900 da Avenida Paulista.

2.

Glaucia Nogueira faz cartões de desconto com anuidade na loja de livros em frente ao ponto. Essa lógica é no mínimo duvidosa, um “pague aqui para pagar menos”. Meus olhos fixos em seu crachá enquanto ela pergunta nome, sobrenome, RG, CPF, data de nascimento, endereço, nome da mãe, signo, ascendente, praia ou montanha e se o homem pisou mesmo na Lua ou foi conspiração. Como você se aguenta, Glaucia? Glaucia, pra quê isso?

Por que você está fazendo isso comigo?

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lustração: Ana Mohallem

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Cabras montanhesas: Um amor, uma admiração, um estilo de vida.

Cabras montanhesas têm sido um pensamento recorrente na minha vida. Parece que todos os meus neurônios, em suas complexas conexões teísticas e emaranhadas, sempre encontram, de alguma forma química-psicologica ainda não exatamente mapeada, uma maneira inusitada de relacionar qualquer assunto à esses animais de adoráveis chifres em forma de concha e pêlos felpudinhos esbranquiçados.

Há 4 anos atrás, tive que participar de uma palestra motivacional em um pensionato de freiras (vivendo radicalmente, pois é). Todo mundo tinha que dizer que animal queria ser e porque. Eu disse que queria ser uma alpaca porque elas eram simpáticas e quentinhas. Não confundam lhamas com alpacas. Lhamas cospem na sua cara enquanto alpacas sorriem. No mais, sou o tipo de pessoa que valoriza o quentinho. Naquela época, eu não conhecia as cabras montanhesas. Hoje sei como elas deveriam ser as rainhas da fauna e as alpacas as princesas.

Alpacas e cabras vivem bem em ambientes montanhosos -As cabras montanhesas em ambientes mais montanhosos-. Elas se equilibram em 3 patas. Elas podem ser domesticadas. Elas podem atacar com cabeçadas. Elas chegam em qualquer lugar. Acho até que seria uma boa se usassem cabras montanhesas para serviço em corpo de bombeiros, assim como os Pastores Alemães são usados pelo exército e polícia, e os São Bernardos para salvamentos.

E você -sim, você ai mesmo, leitor- que para mim é como o inverno, não exatamente ele, mas sim como o último centímetro cúbico de uma flor rodeada por grama no topo de uma montanha antes que a geada chegue, antes que os ursos hibernem, que as aves voem todas para o sul e que toda rara vegetação vire um mundo de neve. Você que é essa coisa rara, especial, escolhida pela trolagem do acaso para estar sozinho ai no topo, delicado mas inatingível…

Eu só chegaria até você se eu fosse uma cabra montanhesa.

Edition of 1000 Printed:

Escritores, roteiristas, artistas… que a gente consiga um dia essa mutação pela nossa arte. Trololololo.

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Blog, Crônicas

É aquilo que eu tive ao encontrar um mousse de maracujá no canto da geladeira com a data de fabricação de 24 de junho de sabe-se lá qual ano. Sem vencimento. E eu vi passarem as Olimpíadas, mudei de emprego, fiquei presa do lado de dentro de um banheiro no meio de uma festa, perdi a chave de casa 43 vezes, briguei com um taxista, ganhei um bonsai, matei o bonsai por falta de água, namorei duas vezes, comprei uma bicicleta e comi o mousse. Fé é o que eu tenho naquilo que não consigo ver. Tenho fé em metáforas e conservantes.

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Nota de vida.

Foi encontrado um corpo na manhã desta quinta-feira, 27 de setembro de 2012, por volta das 06h00 da manhã. Supostamente mulher, 22 anos, estava acordada, saudável e de bem com a vida. Há suspeitas de que o acontecimento tenha se dado por causas naturais e cerca de duas horas e meia antes do despertador tocar.
Questionado, corpo declarou que lamenta profundamente o ocorrido.

 

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Fatalidade (II)

Dos muitos mundos que a gente não pode ver, dos tempos que se passaram e passarão, em algum lugar oposto a isso aqui, existe uma outra eu que se dedica somente a deixar bagunças e easter eggs bizarros pra eu resolver nessa vida. E em algum outro universo paralelo, existe mais uma eu rindo de tudo isso com um óculos 3D.

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Fatalidade (I)

Estou sem voz há três dias. Acordei e estava muda sem nenhuma razão aparente. Temo que fique assim permanentemente. Talvez almeje por isso. Ou essa seja minha chance  de virar prodígio.

Pretendo lançar meus romances engavetados usando o mistério para me promover.

Nos jornais: “Autora que não tinha voz deu ao mundo o que falar”

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